Uma pessoa começa o agachamento, desce até as coxas ficarem paralelas ao chão e interrompe o movimento porque ouviu que passar dos 90 graus prejudica os joelhos. Essa orientação é comum em academias, mas não explica tudo o que acontece no exercício.
O agachamento profundo não é, por si só, prejudicial aos joelhos de pessoas saudáveis e adaptadas ao exercício. A profundidade modifica determinadas demandas articulares, mas segurança e tolerância também dependem da carga, da técnica, da mobilidade, do histórico de treinamento, dos sintomas e do objetivo da prescrição.
Por isso, a pergunta mais importante não é apenas até onde uma pessoa deve agachar. A análise precisa considerar o que muda no movimento, como o corpo responde à carga e quando faz sentido ampliar, reduzir ou adaptar a amplitude.
As evidências disponíveis não indicam que o agachamento profundo, por si só, cause lesões nos joelhos de pessoas saudáveis e adaptadas ao exercício. O problema está em transformar uma variável do movimento em uma regra universal de segurança.
O termo agachamento profundo pode ser usado para amplitudes diferentes. Em alguns contextos, ele significa ultrapassar a linha paralela das coxas; em outros, chegar próximo à flexão máxima possível de quadril, joelho e tornozelo. Essa diferença já mostra por que a discussão não deve se limitar a “passou ou não passou de 90 graus”.
Durante o exercício, as articulações recebem carga mecânica. Isso é esperado e faz parte do estímulo de treinamento. O ponto central é que carga articular não é sinônimo automático de lesão. Tecidos expostos de forma progressiva podem se adaptar, enquanto uma carga mal dosada, abrupta ou incompatível com a capacidade atual pode aumentar a chance de sintomas.
Assim, uma pessoa treinada, com boa progressão e controle, pode tolerar grandes amplitudes. Já uma pessoa iniciante que tenta usar carga alta e profundidade máxima sem preparo talvez precise começar com uma variação mais simples, menos carga ou menor amplitude.
Quanto maior a flexão do joelho, maiores ou diferentes podem se tornar algumas forças e momentos articulares durante o agachamento. Isso não significa que o movimento seja ruim, mas que a demanda muda.
O momento articular pode ser entendido, de forma simples, como a tendência de uma força produzir rotação em uma articulação. No agachamento, conforme a pessoa desce, músculos como o quadríceps precisam produzir força para controlar a flexão e permitir a subida.
A articulação patelofemoral também recebe carga durante o exercício, e a área de contato pode mudar conforme a flexão aumenta. Por isso, analisar apenas a profundidade não basta. Um agachamento parcial com carga muito alta pode exigir bastante de algumas estruturas, enquanto um agachamento profundo com carga menor pode representar uma demanda diferente.
O cuidado está em interpretar força, carga e tolerância em conjunto. A biomecânica ajuda a entender o que está sendo exigido, mas a prescrição precisa considerar se a pessoa está preparada para aquela combinação de amplitude, carga, volume e técnica.
Revisões e análises biomecânicas sobre o agachamento indicam que a profundidade altera as demandas sobre joelho e coluna, mas a interpretação precisa considerar técnica, progressão e carga, sem reduzir a análise a um único ângulo.
Fontes: Rojas-Jaramillo et al., 2024; Hartmann, Wirth e Klusemann, 2013; Cotter et al., 2013.
Os joelhos podem ultrapassar a ponta dos pés durante o agachamento, e essa posição não deve ser considerada um erro de forma isolada. O avanço do joelho modifica a demanda sobre a articulação, mas impedir totalmente esse avanço também muda o exercício.
Quando a pessoa tenta manter os joelhos sempre atrás da ponta dos pés, é comum que o quadril participe mais e o tronco incline mais para frente. Isso pode reduzir parte da demanda no joelho, mas aumentar a exigência em outras regiões. Portanto, a pergunta não deve ser “o joelho passou do pé?”, e sim “como as forças estão sendo distribuídas nesse corpo, nessa carga e nesse objetivo?”.
As proporções corporais também interferem na aparência do movimento. Uma pessoa com fêmur mais longo pode precisar inclinar mais o tronco para manter o equilíbrio. Outra, com boa mobilidade de tornozelo e proporções diferentes, pode agachar com o tronco mais vertical e os joelhos mais avançados.
Nenhuma dessas imagens, sozinha, define uma execução correta ou incorreta. A análise precisa considerar controle, conforto, estabilidade, objetivo do exercício e resposta da pessoa ao treinamento.
Duas pessoas podem agachar com a mesma carga e apresentar movimentos visualmente distintos. Isso não significa, automaticamente, que uma execução esteja correta e a outra esteja errada.
Tronco mais vertical, joelhos mais à frente e maior participação aparente do joelho e do quadríceps.
Tronco mais inclinado, joelhos menos avançados e maior participação aparente do quadril e da cadeia posterior.
Na prática: a decisão não deve partir apenas da aparência do movimento. Mobilidade, proporções corporais, controle, sintomas, carga e objetivo do exercício precisam orientar a análise.
Um estudo clássico comparou agachamentos com avanço livre e restrito dos joelhos e mostrou que limitar os joelhos altera os torques no joelho e no quadril. Isso reforça que a técnica precisa ser analisada como distribuição de demandas, não como regra visual isolada.
Fonte: Fry, Smith e Schilling, 2003.
A profundidade pode precisar ser reduzida quando provoca sintomas, supera a capacidade atual da pessoa ou não corresponde ao objetivo do treinamento. A ausência de uma proibição universal não significa que a amplitude máxima seja adequada para todos.
Dor no joelho durante o agachamento deve ser considerada. Ela não significa necessariamente lesão estrutural, mas também não deve ser ignorada, principalmente quando é intensa, persistente ou piora com a progressão do treino.
Em alguns casos, a adaptação pode ser temporária. Uma pessoa pode sentir desconforto apenas no final da amplitude e tolerar melhor um agachamento mais curto enquanto desenvolve mobilidade, força e controle. Outra pode agachar profundamente sem carga, mas perder estabilidade quando aumenta a resistência.
Pessoas em reabilitação, com histórico de lesões, sintomas atuais ou condições específicas precisam de avaliação individual e, quando necessário, acompanhamento de profissional habilitado. O objetivo não é proibir o exercício, mas ajustar a tarefa à capacidade atual.
A melhor profundidade é aquela que atende ao objetivo do exercício, pode ser controlada e está dentro da capacidade e da tolerância atual da pessoa. Por isso, a prescrição precisa ir além de um limite fixo de graus.
O profissional pode considerar objetivo do treinamento, histórico, sintomas, mobilidade, controle do movimento e carga utilizada. A partir disso, pode manipular profundidade, carga, volume, velocidade e variação do exercício.
Se o objetivo exige força em grandes amplitudes, a profundidade pode ser ampliada progressivamente. Se o objetivo é trabalhar resistência com maior carga ou reduzir sintomas em uma fase específica, um agachamento parcial pode ser uma escolha adequada.
O agachamento parcial não é inferior por definição, assim como o agachamento profundo não é superior em qualquer situação. Cada variação deve ser escolhida pelo que entrega ao objetivo e pela forma como a pessoa responde ao estímulo.
A biomecânica ajuda o profissional a compreender como pequenas mudanças na execução alteram as demandas sobre músculos e articulações. Ela não serve apenas para dizer se um movimento está “certo” ou “errado”, mas para analisar forças, momentos articulares, anatomia, controle e estratégias individuais.
Compreender um exercício exige mais do que observar se o joelho passa da ponta do pé ou se a pessoa ultrapassa os 90 graus. Para profissionais que desejam aprofundar esse tipo de análise, a Pós-graduação em Biomecânica e Avaliação Física para a Prescrição do Treinamento da Faculdade Phorte integra avaliação, análise do movimento e prescrição baseada em evidências.
Com 360 horas, duração de 12 meses e modalidade presencial, a formação aborda conteúdos como avaliação biomecânica, análise cinesiológica dos membros inferiores, biomecânica dos tecidos ósseos e articulares, biomecânica das lesões musculoesqueléticas, avaliação de força e flexibilidade, treinamento neuromuscular e prescrição do treinamento.
Não necessariamente. Em pessoas saudáveis e adaptadas ao exercício, a profundidade isolada não é considerada causa automática de lesão.
Não existe um limite universal de 90 graus. A amplitude deve ser definida conforme objetivo, capacidade e tolerância individual.
Pode. O avanço do joelho modifica as demandas articulares, mas não deve ser considerado um erro de forma isolada.
Algumas forças e momentos podem aumentar, mas carga externa, posição do tronco e técnica também influenciam a demanda.
A amplitude pode precisar ser adaptada conforme os sintomas. Dor persistente ou relevante deve ser avaliada por profissional habilitado.
Depende do objetivo, da mobilidade, do controle, do histórico de treinamento e da tolerância da pessoa.
Rua Rui Barbosa, 422 - Bela Vista - São Paulo - SP